
E ele não voltará mais?
Trecho da peça “Hamlet”, de William Shakespeare: Ofélia - Ana Carolina K. Cardoso
Fotos: Tais Robaina Vidal

Trecho da peça “Hamlet”, de William Shakespeare: Ofélia - Ana Carolina K. Cardoso
Fotos: Tais Robaina Vidal

Morador da cidade ou do campo distante,
No côncavo de um vale ou no alto de uma serra,
Sob um clima de gelo ou sob um sol flamante,
Quer se conserve em paz, quer se destrua em guerra,
- O Homem cai a tremer, em qualquer parte, diante
Do mistério que o céu, - trágico abismo, - encerra...
No teatro do mundo em que o Homem representa
- Mascarado histrião! - a comédia divina;
Das paixões arrostando a terrível tormenta,
Chora, blasfema e ri - há mais de dez mil anos...
Francisco Ilarregui
Apresento-lhes o imigrante espanhol Francisco Ilarregui,
Que veio para Bagé e, com o passar do tempo
Tornou-se um próspero comerciante
E um cidadão preocupado com as causas sociais.
Mas não se fez representar como comerciante em seu leito de morte.
Buscou ser eternizado como um herói letrado, um intelectual entre as colunas.
Representado através de um busto celebrativo,
Que descansa
Em seu mausoléu nos deixa uma mensagem:
A ampulheta alada mostra que o tempo se esvai muito rápido...
E as tochas que se apagam, a certeza da morte.
Portanto, respeitem a morte...
Mas aproveitem e celebrem a vida.
Fotos: Súsi Lima e Tais Robaina Vidal
GREENSLEEVES
É uma música de compositor desconhecido, que acabou se tornando popular no mundo inteiro.
Embora ela não tenha um compositor definido, alguns pensam ter sido ela composta por Henrique VIII, devido a uma letra posteriormente anexada a melodia e atribuída a ele como declaração à Ana Bolena.
Porém, ela apresenta características da música barroca italiana, e devido a essas características, por muitos estudiosos é classificada como uma Romanesca.
Seu ritmo é bastante intenso e sugere uma dança animada, porém sua tonalidade, um Lá menor (Lám) passa-nos a expressão de uma melodia triste, algo que realmente podemos colocar como uma espécie de romance, pois, naquela época, os romances eram de tal forma intensos, que na música, eram representados como momentos alegres, mas que por motivos diversos, apresentavam suas desarmonias.
MARCHA FÚNEBRE
A marcha fúnebre teve sua composição baseada em uma procissão fúnebre, observada e descrita por Frédéric François Chopin no ano de 1837, em Nohant, na França.
Naquela época não seria fácil vender uma marcha para uma procissão fúnebre, ainda mais composta para piano, o que tornaria impossível sua execução durante tal evento, então ele somente a publicou em 1839, como terceiro movimento da Sonata nº 2 em Sibm para piano. Essa sonata é formada por quatro movimentos, são eles:
RÉQUIEM EM RÉ MENOR K. 626
Teve sua composição iniciada em 1791 por Wolfgang Amadeus Mozart, e seu término deve-se a Franz Xaver Süßmay, discípulo de Mozart, que terminou a missa de Réquiem devido ao falecimento de seu mestre neste mesmo ano.
Trata-se de uma das obras mais significativas da vida de Mozart.
A obra conta com uma orquestração completa e arranjo para coral.
A história do Réquiem é bastante interessante, pois trata-se de uma composição encomendada à Mozart por um conde, que manteve-se anônimo para expor a todos que a composição executada nos ritos fúnebres relativos ao falecimento de sua esposa eram de sua própria autoria, sinal de dor e sofrimento pela perda da amada.
Porém, devido às circunstâncias emocionais em que se encontrava Mozart, este acreditou que a missa havia sido encomendada para seu próprio funeral.
No Sarau, foi executado o tema da seção Lacrimosa, o qual traz uma melodia chamativa e uma letra onde é pedido perdão a Deus e concessão do repouso eterno. Nessa letra é colocado um paradoxo, pois, ao mesmo tempo em que expõem o fato do homem renascer para ser julgado, implora a Deus pelo seu descanso eterno.
(Guilherme Cassão Marques Bragança)
Fotos: Tais Robaina Vidal
Bourée é o nome de uma dança tradicional francesa.
Criada no Séc. XVII é uma dança viva, em dois tempos e que faz uso de um ritmo simples.
Muitos autores se inspiraram nela para composições musicais, entre eles J.S. Bach, que escreveu duas peças com este nome.
A música interpretada no Sarau é uma versão de Ian Anderson, da banda inglesa Jethro Tull, feita na década de 70.
(João Pedro Germano Pagliosa)
Foto: Tais Robaina Vidal


Os cemitérios caracterizam-se por serem o local da última morada dos mortos. Na idade média os mortos eram enterrados fora do perímetro urbano, mas como a Igreja passou a ser definida como “espaço sagrado”, muitos passaram a ser depositados em seu solo.
A partir do século XVIII, devido à preocupação com os princípios de higiene que visavam conter as constantes epidemias, os mortos passaram a ser enterrados em lugares mais afastados do perímetro urbano. Neste período cresceu a preocupação com a estética dos túmulos, jazigos e mausoléus fruto do gosto peculiar da burguesia ascendente.
Tornaram-se gradativamente instituições culturais, muito mais que o último lugar de descanso passaram a ser um museu a céu aberto, repleto de significados e representações que nutrem a imaginação daqueles que o visitam. Tanto na Europa como nos EUA, os cemitérios perderam gradativamente o seu aspecto mórbido e desolador para tornarem-se um local de convivência e sociabilidade. Por guardarem os restos mortais de figuras ilustres tornam-se guardiões da cultura e da memória de seu povo. Um fator que auxiliou esta visão foi a difusão das idéias positivistas, pois Comte através da máxima “Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos”, justificava que a memória e os feitos dos heróis e homens notáveis do passado deveria servir de exemplo e inspiração para as futuras gerações.
O mesmo processo ocorreu nos cemitérios brasileiros que formaram, ao longo do tempo, um acervo de grande valor artístico e histórico, sendo estes alisados através das pesquisas de Maria Elizia Borges e Harry Bellomo, entre outros historiadores.
Cada cemitério é um museu que possibilita através de seu acervo resgatar a história das famílias tradicionais, a mobilidade social e sua mentalidade fruto da importância política e da opulência econômica dos municípios.
(Clarisse Ismério)
Fontes:
Projeto História através da Arte Cemiterial.
ISMÉRIO, Clarisse . Preservando a Arte Cemiterial: História, representações e influências na arte cemiterial no Rio Grande do Sul.Revista Congrega URCAMP 2008, v. 4, p. 271, 2008.
ISMÉRIO, Clarisse . HERÓIS, MUSAS E ANJOS: HISTÓRIA E REPRESENTAÇÕES NA ARTE CEMITERIAL DE BAGÉ. Revista CONGREGA URCAMP - 5a Jornada de Pós-Graduação e Pesquisa, v. 3, p. 3, 2007.
Cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé
Mausoléu Família Riet
Instintos são estes de obediência
Porque amar é obedecer
É preferir a vontande própria à vontade alheia
É gozar da felicidade de ver os outros satisfeitos
Ela obedece espontaneamente
Porque obedece por amor e não por servilismo
Nenhuma mulher pode ser desviada para exercer qualquer função fora do lar
Sem prejuízo de seus deveres de filha, esposa e mãe
Na sociedade organizada, o lugar da mulher é no lar
Zelando sobre a saúde de seus entes queridos que a humanidade confiou a sua solicitude.
(Trechos de poemas extraídos de autores positivistas, da obra de Clarisse Ismério, Mulher: A moral e o imaginário, 2005)
Anjo na vida. Anjo na morte
Ele: o dono do mundo. Ela: escrava do lar. Afinal, porque Deus criou a mulher? Para que todos nós nascêssemos e fôssemos educados por ela. Com este pensamento, durante muitos e muitos anos, a mulher se manteve sob o domínio conservador de uma sociedade predominantemente machista.
Considerada a rainha do lar e o anjo tutelar, a mulher nascia com o destino predeterminado. Sua função era servir ao pai e aos irmãos e, mais tarde, ao marido.
Educada nas melhores escolas de prendas domésticas, ela não precisava compreender política ou economia, e sim, saber lavar, engomar e cozinhar, e o mais importante: ensinar as filhas o segredo de serem excelentes esposas e mães, e os filhos a sabedoria de grandes homens.
Nada mais justo que elas fossem eternizadas em túmulos de cemitérios de todo o mundo. Na vida, zelavam pela moral e pelos bons costumes, e na morte, resguardavam a honra da família.

Porque choras tão baixo
Aqui na casa dos esquecidos, o silêncio é o manto da dor e do esquecimento
Sufocados pela cidade dos homens, nós repousamos em perpétuo silêncio
Guardados por carpideiras que eternamente lamentam, choram...
No mesmo lugar pelas mesmas pessoas...
O tempo já se foi e as ampulhetas já voaram, deixando para traz as cinzas do tempo.
O tempo esquecido pelos vivos,
Eternizado pelos mortos
Em sua morada tão distante do mundo,
Tão distante da vida.
Lugar onde os anjos da morte
Repetidamente apagam a chama da vida
Com um único sopro, forte e breve...
Onde os anjos batem asas, mas presos não conseguem voar, e apenas olham, oram...
Rezam sem descanso...
Lugar onde a saudade positivista joga repetidamente flores nos jazigos.
Onde a serpente petrificada conta por si só sua história
A história deste túmulo ou casa para nós, não é muito diferente dos tantos outros que guardam esculpidos sua história, e a história de uma época...
A saudade, dor e perda estão aqui entalhadas, representadas. O imaginário popular conta a história de uma criança cuja inocência lhe custou à vida. Euclides Felipe teve a vida ceifada por uma serpente aqui representada, quando em um gesto de pureza e inocência ao enfiar a mão em uma toca a procura de uma coruja foi surpreendido por uma picada. Em silêncio a coruja espera, esculpida, petrificada aqui por mais uma oportunidade para sair da toca escapando da serpente.
( Douglas Lemos de Quadros)
Túmulo da Família Paixão Cortes – Lord, Douglas Lemos de Quadros
Foto : Tais Robaina Vidal